Atelier Heráldico

Inventando Brasões Familiares

Sobre o Brasão de Bento XVI

Para os leigos no assunto heráldico, mas amantes desta arte, em específico a arte heráldica eclesiástica da igreja romana, talvez já devem ter lido algo sobre uma questão de aparente incoerência da sua heráldica entre os modelos de padrão heráldico para brasões de papas vigentes e o modelo particular adotado por Bento XVI a partir de 2005. A questão é que o atual Papa, ao ascender ao trono do Vaticano, adotou para si algumas idéias heráldicas muito diferentes do costume heráldico até mesmo entre seus clérigos, idéias algumas que contradiziam até mesmo algumas simbologias hierárquicas adotadas pelo próprio Vaticano, ou seja, pelos papas anteriores.

Antes de mais nada é preciso esclarecer alguns fatos que passam despercebidos, ou, não conhecidos. A arte heráldica não é um fim em si, mas sim, um resultado de decisões baseadas no querer de autoridades competentes no assunto. Caso o internauta não saiba, o Vaticano é um Estado, assim como o Brasil. Aqui somos uma república federativa, e lá é uma monarquia absolutista, uma das últimas ainda existente no mundo. Mas não é o regime de governo estatal que está em questão, mas sim, a soberania de um Chefe de Estado. Bento XVI é o Chefe de Estado do Vaticano, e como tal, assim como em todas as nações, sejam monárquicas ou não, é direito de seu Chefe Maior definir e redefinir seus símbolos de acordo com seus critérios particulares. Numa república democrática, porém, essa decisão precisa passar pela aprovação de um legislativo, mas numa monarquia absolutista é apenas o Chefe de Estado que define este assunto, mesmo que tenha ministros e conselheiros. Bento XVI é um Chefe de Estado e ao mesmo tempo também a máxima autoridade da Igreja Católica Apostólica Romana, e sendo assim, ele, e somente ele, pode decidir o que quiser a respeito dos símbolos que envolvem ao mesmo tempo o Estado do Vaticano e a igreja romana, afinal, o Vaticano é as duas coisas ao mesmo tempo. Qualquer monarca ao redor do mundo tem o direito a fazer isso de acordo certas mudanças que ocorreram na sua história. Foi assim, por exemplo, com a última modificação que houve no brasão do Reino Unido da Grã-Bretânia, no reinado da Rainha Victória. Numa monarquia, o brasão do monarca é também o brasão nacional, e Victória, que é descendente da abastada casa alemã de Hanover, viu o sentimento de repulsa nacional contra os alemães já durante a 1ª guerra mundial. Com isso, Victória decidiu eliminar do brasão nacional todo símbolo que lembrasse a nação germânica. Victória tinha essa autoridade de mudar o símbolo nacional, e assim o fêz. Da mesma forma, Bento XVI, de acordo com suas convicções pessoais, decidiu mudar o estilo do brasão papal, mesmo fugindo muito da arte heráldica tradicional que eles mesmos usavam. Mas como Bento XVI é um monarca, então sua mudança passa a ser novo padrão, mesmo ferindo as mais elementares regras básicas da arte heráldica.

Não é nossa intenção aqui expor os pormenores das regras heráldicas tradicionais que Bento XVI não observou (até mesmo algumas da tradição do próprio Vaticano) mas sim, estabelecer a idéia de que ele pode, e que ele o fêz, e que assim ficou. A tradição é estabelecida por pessoas com autoridade para isso, e como tal, Bento XVI estabeleceu nova tradição. E é isso.

Porém, em 2011 Bento XVI já aceitou retornar o uso da coroa papal no lugar da mitra em seu brasão. A mitra originalmente adotada por Bento XVI em seu brasão em 2005 inevitavelmente classificava visualmente seu brasão como que um brasão de diocese ou arquiciocese. Nem mesmo bispos usam mais mitras em seu brasão, costume que havia sido abolido por Paulo VI em 1969 em novas alterações para padrões heráldicos para brasões de bispos e cardeais.

Outra questão é que, mesmo que possivelmente ninguém tenha comentado, surgiu uma nova e inevitável questão: tradicionalmente o patriarcado de Lisboa pode usar a "triregnum" (nome clássico para a coroa papal, também conhecida como "tiara papal"), e até mesmo o patriarca, de acordo com uma concessão honorífica concedida pelo Papa Clemente XII durante o reinado de D. João V. Fica estranho que um patriarca usasse uma triregnum em seu brasão e no brasão de seu patriarcado, e em contrapartida o próprio Papa usando um brasão com uma mitra episcopal, símbolo heráldico hierárquico inderior ao de uma triregno. Visualmente falando, fica parecendo que o patriarcado de Lisboa seria hierarquicamente superior ao próprio Papa. É evidente que isso é um absurdo, e nem tem como imaginar isso na prática, porém, para resolver essa questão, e manter a mitra no brasão de Bento XVI, seria preciso então retirar do patriarcado de Lisboa o direito de uso da triregnum.

Ainda outra questão inevitável sobre o uso da mitra episcopal no brasão papal é que também pode-se imaginar que os brasões de todas todas as dioceses ou arquidioceses ao redor do mundo deveriam mudar seus brasões, caso em algum deles existissem modelos de mitras parecidas com a mitra do brasão de Bento XVI. A questão é que não existe desenho padrão estabelecido para as mitras para brasões de dioceses e arquidioceses, e então cada diocese ou arquidiocese pode usar o desenho de mitra que mais gostar para seus brasões.

Para o internauta que não está familiarizado com a história do Vaticano, desde Paulo VI que mais nenhum Papa usa a triregnum física sobre suas cabeças, mas apenas na forma de desenho nos seus brasões heráldicos. Paulo VI chegou a ser coroado, e chegou também a usar a triregnum, mas decidiu abandonar o costume de usa-la. Desde então, João Paulo I e João Paulo II fizeram o mesmo. Bento XVI foi mais longe e resolveu também eliminar do brasão o desenho da triregnum, porém, criou-se um conflito de normas heráldicas estabelecidas por eles mesmos, e que a solução mais prática é fazer retornar o seu uso. Por esta razão, a partir de 2011 começou-se a ser notado em vários adereços litúrgicos da igreja romana o brasão de Bento XVI com a triregnum ao invés da mitra episcopal.

É preciso que o internauta também saiba que há diferença entre uma  coroa heráldica e uma coroa física. A coroa heráldica é apenas um desenho que está num brasão, já a coroa física é uma peça física de metal usada sobre a cabeça de uma pessoa. Mesmo que a imensa maioria dos atuais monarcas não usam coroas físicas sobre suas cabeças (e em alguns casos nem existem tais coroas físicas), ainda assim em seus brasões há o desenho heráldico de coroas, pois é símbolo heráldico de autoridade monárquica. Assim é com a Espanha, Mônaco, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Noruega, Suécia, etc. Muitos destes monarcas até tem coroas físicas, mas nunca as usam. Da mesma forma, mesmo que a partir de Paulo VI o uso de uma coroa papal física foi abolida, heraldicamente o desenho de uma coroa papal continuou a ser usada nos seus brasões, até porque, o próprio brasão do Vaticano tem o desenho da triregnum. A triregno é antes de tudo um símbolo hierárquico hierárquico para o Estado do Vaticano, e também símbolo hierárquico pessoal para um Papa. Muita gente tem usado a triregno em outras situações, mas isso é assunto para outra ocasião.

Um brasão com uma mitra significa autoridade diocesana ou arquidiocesana (um conjunto de várias congregações ou de várias dioceses), já um brasão com uma triregno significa autoridade sobre todas as congregações, dioceses, arquidioceses, patriarcados, e toda sorte de administrações que compõe a Igreja Católica Apostólica Romana. É por essa razão básica que se tem comentado muito o uso de uma mitra episciopal no brasão de um papa ao invés da triregno, mesmo que somente desenhada. No site do Vaticano existe um comentário sobre os argumentos de Bento XVI para o uso da mitra na época, mas como o mérito da questão é um assunto longo, não é nossa intenção discorrer sobre isso. ( Leia aqui o texto na íntegra ).

Outro detalhe heráldico adotado por Bento XVI em seu brasão foi o uso do pálio. Sem querer entrar em maiores detalhes, em poucas explicações pode-se dizer que um pálio é um símbolo heráldico próprio de brasão de Arcebispo que tem uma função específica na igreja romana que se chama "metropolita", ou seja: é um poder administrativo específico que ele tem. Porém, para que o pálio de Bento XVI não fosse também o mesmo que um Arcebispo usa (tipificando que Bento XVI estaria ainda administrando congregações ou dioceses), criou-se novo tipo de pálio, adotando-se a cor vermelha para as cruzes páteas que estão neste adorno, sendo que as cruzes páteas de um pálio de Arcebispo Metropolitano são negras. Ou seja: mais uma vez Bento XVI criou nova tradição.

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Padrão adotado por
Bento XVI em 2005.

Este é o padrão adotado por Bento XVI quando iniciou seu papado em 2005, com mitra episcopal e pálio modificado.

Como teria sido o brasão de Bento XVI
na configuração padrão até 2005.

Este é o padrão usado até João Paulo II.

Padrão modificado em 2011

Este é o padrão modificado em 2011, eliminando a mitra episcopal e recolocando a tradicional triregnum, mas mantendo ainda o pálio modificado.

Assim sendo, a partir de 2011 Bento XVI fez retornar a triregnum sobre o escudo do seu brasão, mas manteve o pálio com as cruzes páteas vermelhas.

Que fique bem claro: mesmo que o brasão de Bento XVI passou por cima das regras da arte heráldicas tradicionais, ainda assim, Bento XVI pode, e assim o fêz, a criou-se nova tradição. O próprio padrão heráldico para um brasão papal usado até 2005 nunca "nasceu" já daquela forma. Ele foi mudando de épocas em épocas. Como exemplo destas mudanças, vale relembrar que o primeiro brasão papal que se conhece, o de Inocêncio III, era apenas um escudo oval com ponta em baixo, ou seja: é muita diferença entre o primeiro brasão e o desenvolvimento de brasões papais até chegar ao padrão do século XX. Na época de Inocêrcio III não haviam ainda nem o costume de usar desenho heráldico de mitra, a própria triregnum física surgiria séculos depois, e as nem chaves e a corda sequer eram usadas em ocasião alguma. Muita coisa mudou desde então, e a decisão de Bento XVI faz parte destas mudanças que ocorrem de tempos em tempos por quem tem autoridade para isso. Mas é importante que se saiba que só o Papa pode fazer isso em questões heráldicas na igreja romana. Nenhum clérigo abaixo do papa pode alterar o padrão de adornos externos de seus próprios brasões, pois não tem autoridade para isso.